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CORPO INFLADO, EU ACHATADO:
Um diálogo sobre a obesidade como metáfora clínica do mal-estar contemporâneo da civilização

Janaina Santos de Souto Isidro

Podemos dizer que a pós modernidade traria impactos e implicações ao psiquismo? E a obesidade entendida como defesa contra a castração, nos indicaria uma estrutura psíquica específica ou poderia ser tomada como uma metáfora clínica a denunciar o mal-estar contemporâneo da civilização? Neste trabalho de conclusão de curso trazemos para o debate o lugar do corpo como insígnia de valor na cultura, incidindo sobre os modos diferenciados de concepção da obesidade ao longo dos vários tempos históricos da nossa civilização. Embora Freud tenha destacado o lugar do corpo na estruturação do psiquismo, o percurso psicanalítico pós-freudiano colocou sobre a linguagem a primazia de sua atenção numa espécie de soterramento do corpo a tudo aquilo que pudesse ser representado pela linguagem. Buscamos recuperar neste trabalho o lugar destinado ao corpo na constituição do psiquismo no interior da teoria psicanalítica no percurso que vai do ego corporal ao ego psíquico. O nascimento psíquico não é contemporâneo ao nascimento biológico, não se dando ao mesmo tempo, sendo o nascimento psíquico necessariamente posterior ao biológico. Considerando que na obesidade estaríamos diante de uma tendência à impossibilidade de recusa, ou seja, uma impossibilidade de produzir alguma separação em relação ao gozo do Outro, a psicanálise pode se inscrever como um discurso que vai na contramão da saturação do desejo e do imperativo do gozo sem limites postos na contemporaneidade. Interrogar qual lugar destinamos ao sujeito do inconsciente neste contexto de saturação do vazio e achatamento da fala é fundamental, à medida que interrogamos ao mesmo tempo o nosso papel e aposta enquanto clínicos. Na nossa contemporaneidade, o ponto nodal pulsional parece ser o imperativo de supressão da falta e dos contornos que demarcam limites. É diante deste desafio ético, estético e clínico que apostamos em nossas construções clínicas acerca da obesidade, como a trama de um tear, a ser singular, viva e artesanalmente tecida.

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