O narcisismo na etiologia dos transtornos alimentares
Aline Fonseca Nascimento
O tema do narcisismo se encontra na base dos transtornos alimentares. A precariedade do investimento libidinal materno na relação mãe-bebê, compromete a formação do autoerotismo e a ação do narcisismo, em sua função de unificar as pulsões parciais em torno de uma unidade do eu. Dois tipos de pulsões existem entrelaçados nesse primeiro tempo da organização psíquica, pulsões de autoconservação e pulsões sexuais. A ação do narcisismo vai falar da emergência das pulsões sexuais, como um complemento libidinal do egoísmo das pulsões de autoconservação. Esta ação irá unificar o eu e marcar uma diferenciação das pulsões sexuais em dois tipos, libido do ego e libido do objeto. A libido do ego surge, como consequência da ação do narcisismo que envolve o amor por si, e onde o eu também se apresenta como objeto de investimento amoroso. O tempo do narcisismo primário é o tempo da onipotência mágica, de sua “majestade o bebê”. É um tempo de perfeição onde não há falta nem furos. Esse tempo ilusório se constitui como sendo fundamental e estrutural para o eu e também será chamado de eu ideal. Quando essa mãe falha em ser este continente idílico para o seu bebê, ocorre uma fixação da libido narcísica a esse eu ideal. Para Freud, essa defesa primitiva vem para proteger o ser humano de seu desamparo fundamental, que se constitui de uma total dependência do outro que nos cuida; ao que ele chamará de ferida narcísica. A problemática dos transtornos alimentares se situa nessa regressão da libido a uma instância engessada do eu ideal que não consegue transitar e nem escalar para uma outra instância, denominada ideal do eu. Esta instância, mediante as frustrações do mundo externo e interno, encontra no princípio de realidade sua homeostase narcísica. Nos transtornos alimentares há uma recusa da falha humana, sua finitude, suas perdas; o que leva o ego a fazer uma clivagem entre o eu e o corpo, onde o corpo entrará em cena, atuando de forma literal, essa impossibilidade de metabolização simbólica do sofrimento psíquico e da unificação eu.
